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Onde estão as coisas boas?
Artigo Publicado em 14/03/08

É sábado. Acordo para apanhar o jornal, que agora assino apenas aos finais de semana. Estão lá todas as manchetes, um repeteco quase idêntico ao da semana passada e das anteriores. Acho que foi Proust quem propôs que parássemos de ler jornais e os substituíssemos por bons livros.
Cássia Janeiro
Escritora, poeta e
educadora

Peguei o meu jornal, dei uma olhada por cima, cansei. Esse bombardeio de informações que me chegam via impressa e pela Internet, a ânsia pela informação, o medo de parecer desinformada, tudo isso um dia me pareceu tão estúpido, tão vazio, a forma sem conteúdo, a banalização das coisas e das pessoas... Comecei a me sentir como se comesse muito e rápido demais e decidi mudar de vida, porque o ritmo que nos impomos implica numa decisão.

 

 

Foi assim que escolhi ter menos para conseguir mais. Menos informação, menos bombardeio, mais qualidade, mais tolerância. Há coisas muito boas sendo feitas, há pessoas fantasticamente envolvidas num processo de resgate de amor e de solidariedade, de fraternidade e de compaixão. Raramente essas pessoas e suas ações são focos de notícia, dificilmente as vemos nas primeiras páginas. A primeira resposta é: isso não dá notícia. Desconfio dessas respostas prontas. Parece que elas antecedem o experimento, que se agarram na morbidez.

Dizem que é alienação mostrar o lado positivo de uma sociedade apodrecida. Mas não é igualmente alienação jogar luz apenas no lado negativo de uma sociedade que é também produtiva, solidária e carente de um pouco de respeito pelo que há de mais elevado nela? Há os dois lados, mais que dois até.

Sonho com o dia em que um tapa-sexo não apareça como manchete principal, sonho com o dia em que as páginas das revistas semanais não tenham que obrigatoriamente ter uma mulher quase nua para vender mais exemplares, sonho com o dia em que a violência não seja estilizada a ponto de parecer história irreal, sonho com o dia em que haja espaço para a esperança, para ações positivas; sonho com o dia em que esteja lá a possibilidade de sonho. Aí abrirei meu jornal e ele não servirá apenas para limpar os vidros da minha casa ou para as necessidades dos meus cachorros. Enquanto isso, sigo o conselho do bom e velo Proust.

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